Os alternativos redescobrem o Brasil e entram na Nova República

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Os alternativos redescobrem o Brasil e entram na Nova República
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Ninguém tem dúvidas de que IX Encontro Nacional de Comunidades Alternativas foi o maior evento no gênero já realizado no Brasil. Afinal, foi a primeira vez que tanta gente, com cabeça tão diferente conseguiu se reunir durante cinco dias para discutir a identidade de um movimento cuja característica mais evidente sempre foi à multiplicidade de caminhos.

O que pouca gente percebeu é que o Encontro não se restringiu àqueles ensolarados dias de julho, em Pindamonhangaba. Na verdade, tudo começou há mais de um ano atrás e apenas agora, passados dois meses, pe possível delinear com alguma clareza qual foi o resultado de toda essa Conspiração Aquariana que envolveu muito mais gente do que as três mil pessoas presentes na Fazenda de Nova Gokula.

Nessa matéria, OUTRA mostra a parte oculta do iceberg: as esperanças, expectativas e divergências que comunidades rurais, ecologistas, terapeutas alternativos, naturistas, místicos e políticos levaram para o Encontro e – principalmente – o que cada um deles andou dizendo depois de voltar pra casa.

Sábado, 27 de julho de 1985. N a Fazenda de Nova Gokula, comunidade rural do grupo religioso Hare Krshna, barracas de todos os tamanhos já se estendiam por uma faixa de terra plana, entre a margem do rio e a encosta da Serra da Mantiqueira. Enquanto o público tomava o café da manhã - pão integral com pasta de ervilha e chá de cevada - a comissão organizadora ainda resolvia os últimos detalhes da programação de abertura.

Há quatro meses, aliás, a Comissão Organizadora vinha-se debatendo com o problema de como abrir aquele Encontro sem ferir as suscetibilidades de uma boa parte dos participantes. Para qualquer pessoa que já tivesse participado de pelo menos um dos Encontros de Comunidades acontecidos entre 1978 e 1984, tudo poderia parecer muito simples: bastava formar o tradicional círculo de confraternização, entoar três vezes o mantra OM e dar a partida para a apresentação dos líderes de cada comunidade rural. O problema estava justamente aí: desta vez, a Comissão convidara muito mais gente e, além da velha tribo de ruraleiros, lá estavam também os ecologistas, os jornalistas da grande imprensa, pesquisadores saídos da universidade e até mesmo um Secretário de Estado representando o governador Franco Montoro.

O primeiro - e maior risco – era de que as comunidades não vissem com bons olhos a presença de tanta gente nova. O segundo risco era a reação dos ecologistas urbanos ao clima de misticismo que certamente haveria no Encontro. Para começar, a própria comunidade anfitriã - os Hare Krshna - já era vista como uma das mais radicais em termos de opção religiosa, seguindo rigorosamente os preceitos da tradição védica. Além disso, havia os grupos Ananda Marga, Rajneesh, os iogues, os seguidores de Paramahansa Yogananda e de dezenas de outros líderes espiritualistas.

O terceiro risco era o relacionamento com a imprensa. Três redes de televisão resolveram dar um pulo em Nova Gokula e havia jornalistas de publicações tão diversas quanto à poderosa revista Veja ou o politizado Jornal do PT.

Nesse clima de apreensão, onde qualquer mal entendido poderia acender velhas desconfianças, a Comissão Organizadora optou por uma programação neutra: uma rápida apresentação de líderes de comunidades e de alguns convidados, seguida de palestras sobre temas eminentemente técnicos e, portanto, menos explosivos.

A estratégica deu certo, mas não aqueceu a temperatura do Encontro. De tarde, formaram-se os grupos de trabalho que, durante cinco dias, deveriam discutir temas fundamentais para o meio alternativo. Paralelamente, um enorme circo de lona foi ocupado por todos os que tinham algo para vender: artesãos, editoras, produtores de alimentos e de tecnologia apropriada.

No domingo, 28 de julho, a programação parecia ainda mais frouxa. O público - talvez por causa das enormes distâncias entre a área de camping e o palco _ preferia circular pelo refeitório ao ar livre ou tomar banho no rio enquanto Khan, Lize Torok e Sampurno, responsáveis pela condução das atividades de palco, faziam apelos inúteis pelo microfone.

Os primeiros sinais de mudança ocorreram no final da tarde. O Movimento Ecológico Livre de Florianópolis (Mel de Flor), solicitou a convocação de uma reunião extraprogramação para discutir a validade da criação de um Partido Verde e mais de cem pessoas foram para o “circo do meio”. Pela primeira vez, uma atividade pegava fogo espontaneamente. Depois do almoço, alguns grupos de trabalho sumiram do mapa e foram-se reunir em áreas retiradas da fazenda. Os líderes de comunidades, por sua vez, decidiram antecipar o Encontro dentro do Encontro - uma reunião fechada, reservada exclusivamente para os membros do Conselho Deliberativo das Comunidades - e realiza-la no maior dos circos de lona, com a participação de todos o interessado.

“O Encontro está nascendo”, comentou Sampurno, membro da comissão organizadora. Param Gacit, líder do movimento Hare Krshna e presidente da comissão organizadora, circulava apressado entre todas as áreas da fazenda: “Está uma loucura, tem gente querendo fazer reunião por toda parte, o palco está abandonado”. Simultaneamente, Walter Vetillo percorria os grupos seguidos pelo pessoal da imprensa: “Cadê o Valdo França? O pessoal da Globo está querendo ele agora para uma entrevista sobre agrotóxicos”. No palco, Lize Torok perguntava a Khan: “Quem é essa gente que está fazendo uma reunião dentro do rio? Tem alguém dando aula e uma turma acompanhando, todos com água até a cintura”.

No final da noite, o novo clima estava claramente definido. O Encontro explodira todos os parâmetros de organização anteriormente definidos e encontrara seus próprios rumos. A comissão assimilou muito bem a nova proposta: “Não importa que haja um esvaziamento do palco”, disse Param Gacit, “o que interessa é que estão todos discutindo coisas importantes e todo mundo está participando”. “As pessoas vieram pra cá com muita coisa pra dizer”, completou Sampurno.”Ninguém quer ficar sentado, ouvindo um medalhão que tem um microfone na mão e um discurso autoritário na cabeça. Além disso, o círculo é uma coisa mágica, ritual, igualitária. A troca de experiências fica muito mais fácil”.

Nos três últimos dias, as atividades se multiplicaram em ritmo vertiginoso. Algumas estrelas alternativas, que foram a Nova Gokula apenas para dar uma rápida palestra e sair logo em seguida, saíram perdendo. Apenas a engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi, o terapeuta Rajneesh Aron Abend, o professor de apicultura Lenhart Schirmer, o jornalista Fernando Gabeira e o respeitado Hermógenes, uma espécie de decano dos professores de yoga no Brasil, escaparam da febre que encheu o camping de pequenos círculos de debate e deixou o palco praticamente às moscas.

O ambiente geral era de descontração. Apenas em dois grupos havia um pouco mais de tensão: entre o pessoal das comunidades rurais (ver editorial A opinião da Outra) e no grupo de trabalho de medicina alternativa, onde algumas rivalidades profissionais ameaçaram tempestades que, no final das contas, acabaram não acontecendo.

No último dia, 31 de julho, todos os grupos de trabalho redigiam seus documentos numa rapidez que variou dos dez minutos gastos pelo grupo de imprensa alternativa às várias horas - e muitos impasses - do grupo de medicina. Ás quatro da tarde, depois da leitura dos documentos e do anúncio de que no próximo ano o Encontro se desdobrará em vários - o das comunidades, em Pirenópolis (GO), o da alternativa, em Nova Gokula, e talvez o do Cometa de Halley, em Piatã (BA) e o de Vivência Comunitária, em Curitiba - todos se reuniram para a celebração final, um enorme círculo onde todos, de mãos dadas, pediam a harmonia e a paz.

AS CONCLUSÕES DOS GRUPOS DE TRABALHO:

ECOLOGIA

As 25 entidades representadas aprovaram a elaboração de uma pauta provisória para o I Encontro Nacional de Entidades Ecologistas Não Governamentais, a realizar-se em Belo Horizonte em abril de 1986. Os itens mais importantes são a discussão da forma de organização e luta do movimento ecológico, a participação dos ecologistas na Constituinte, a problemática da forma de partido, a crítica ao modelo sócio-econômico do pis e o papel da imprensa e das redes de informação como canais do movimento. Decidiu-se também a criação do boletim nacional, cuja primeira edição publicamos a partir da P.10.

IMPRENSA ALTERNATIVA

As dificuldades de distribuição e a desarticulação entre os diversos órgãos de imprensa alternativa foram os dois maiores problemas identificados pelos representantes de onze diferentes publicações. Diversas ações foram sugeridas. Com destaque para a atuação dos jornalistas alternativos como intermediários entre as propostas alternativas e os meios de comunicação de massa, a criação de rádios-pirata voltadas para a conscientização ecológica, a organização de um núcleo de informações com utilização de processamento eletrônico de dados e de uma rede nacional de rádio amador para agilização, a baixo custo, da troca de informações.

SAÚDE

Afirmando que o estado de saúde depende de uma correta observância das leis da natureza, o relatório preconiza hábitos saudáveis de alimentação natural, respiração, higiene e práticas de pensamento que levem ao crescimento interior. No âmbito social, prega a formação de agentes de saúde alternativa para atuação na comunidade, a criação de uma central de informações para coleta das diferentes técnicas populares de cura existentes no Brasil e a difusão destas técnicas através de pacotes culturais oferecidos a instituições governamentais, empresas e grupos comunitários.

EDUCAÇÃO

Com a afirmação de que o conhecimento deve ser uma síntese da ciência, da arte, da filosofia e da religião, o grupo enfatiza o papel da escola como centro de geração, e não apenas de repasse de saber. A didática deve ser estruturada para eliminar o Ego e unificar o movimento alternativo. O conhecimento técnico-científico gerado pelas práticas alternativas deve ser coletado e organizado por um centro a ser criado para este fim. O relatório defende ainda uma educação esclarecedora dos momentos que passamos, levando em conta todas as indicações de que a sociedade vive, hoje, um momento de crise e de fim de um ciclo.

COOPERATIVISMO

Os representantes de cinco cooperativas ecológicas afirmaram que o cooperativismo e alternativo pressupõe a cooperação entre todos os homens, sem distinções, irmanados num movimento econômico e social que vise à manutenção material com o mínimo indispensável: “É a cooperação, e não a competição imposta pelo delírio consumista, que permite a evolução dos seres humanos. As cooperativas reciclam todos os materiais, inclusive o lixo (lixo é luxo!). O trabalho deve ser autogestionado, comunitário, com funções rotativas e pressupõe a responsabilidade participativa e democrática. O trabalho manual tem o mesmo valor do intelectual quando há rotatividade nas funções”. O relatório defende ainda o resgate das culturas locais através de pesquisas e experimentações constantes, assim como a eliminação do ICM que incide sobre o ato cooperativo. E termina dizendo que “a economia cooperativista abomina as práticas capitalistas onde o homem é mero objetivo para a acumulação do capital. No cooperativismo, o homem é sujeito de sua história e o trabalho e a natureza são valores reais”.

AGROTÓXICOS

No mais técnico de todos os documentos do Encontro, o grupo identificou três causas para a sucessão de mortes de agricultores e envenenamento de consumidores provocados por agrotóxicos: a falta de conhecimento de técnicas agrícolas suaves, o desconhecimento das verdadeiras causas das pragas e doenças vegetais e a facilidade de aquisição de produtos tóxicos. Como soluções, enumera uma extensa lista de sugestões, que vão desde a proibição de venda de agrotóxicos sem receituário agronômico, com punições previstas em código penal nos casos de descumprimento, até a inclusão da questão ambiental na pauta da Constituinte.

A CRONOLOGIA DO ENCONTRO

31 de maio de 1984 – Em São Lourenço, no encerramento do VII Encontro de Comunidades, as lideranças do movimento escolhem Nova Gokula como sede do Encontro seguinte.

Janeiro/fevereiro de 1985 – Os Hare Krshna, com assessoria do ecologista Arlindo Henrique, delineiam o projeto para o aproveitamento do espaço de Nova Gokula e a organização do Encontro.

Fevereiro – Param Gacit Swâmi faz contatos pessoais com alternativos do eixo Rio-São Paulo e recolhe sugestões.

1º e 2 de março – Apresentação da proposta do Encontro para líderes de grupos alternativos, no Rio. Dos participantes antigos do movimento, estão presentes Hélder Carvalho (Aurora Espiritual), Regina Sylvia (Nave), Felipe Desidério (Sol e Terra), Ernani Fornari, Lize Torok (Fazenda Sertão) e Valdo França. Há uma forte reação contrária à idéia de um encontro para dez mil pessoas (essa era a proposta inicial) e ao esquema promocional com patrocínios, outdoors e venda de ingressos na rede bancária. Arlindo Henrique abandona a reunião ao ver rejeitada sua proposta de organização do temário. Depois do susto inicial, os “antigos” absorvem a idéia e propõe-se a eleição de um Conselho Deliberativo Nacional para a definição da programação do Encontro. A votação ocorre de imediato e indicam-se os nomes dos líderes das comunidades tradicionais (Ekhanata, Sarvananda, Olinto, George, etc.) e de representantes de outros setores do meio alternativo: Valdo França (agricultura ecológica), Tuika (Coonatura), Regina Sylvia (Nave), Fernando Fernandes (COOVIDA/OUTRA), João Avellini (Coolméia), etc. Elege-se também a Comissão Diretora: três membros da comunidade anfitriã e ainda Lize Torok, Felipe Desidério e Khan (Comunidade Casa do Caminhão, RJ), sob a presidência de Param Gacit.

Março/Abril de 1985 – A primeira reação dos alternativos paulistas é negativa: tanto a comissão quanto o Conselho estão cariocas demais. Param Gacit conversa com os paulistas e, pouco a pouco, obtém novas adesões à idéia. A grande dificuldade, neste período, é vencer as barreiras que separam, de um lado, cariocas e paulistas e, de outro, alternativos rurais e urbanos. Teme-se também a utilização do evento apenas em proveito da divulgação da filosofia védica, em detrimento das propostas de outros grupos. Toda a tribo está muito dividida e desconfiada. Expedem-se as cartas para os membros do Conselho Deliberativo e chegam as primeiras respostas. A Comissão Diretora, mais afinada com o pensamento dos ruraleiros, concentra-se no trabalho de aplainar as arestas entre as velhas lideranças do movimento. Paralelamente, forma-se uma comissão executiva que, a partir desse momento, cuidará de toda as tarefas de promoção e contatos com a imprensa: Walter Vetillo, Cláudio Duarte, Sampurno, Valdo França, Purushatraya (todos de São Paulo) e Fernando Fernandes (Rio).

Maio de 1985 – A Comissão Executiva reúne-se continuamente em SP, ora na Academia de Cláudio Duarte, ora no Templo Hare Krshna. Os contatos com agências de publicidade não produzem grandes resultados, mas, em compensação, consegue-se o empréstimo de um escritório do PMDB para centralização do trabalho. No Rio, a COOVIDA e o Templo Hare Krshna organizam um minigrupo para distribuição de material da propaganda. Em Nova Gokula, as obras caminham devagar, por falta de recursos. Param Gacit viaja continuamente entre Rio e São Paulo, articulando os trabalhos.

Junho de 1985 – Já existem minigrupos divulgando o Encontro em diversas cidades. OUTRA lança uma edição especial, com trinta mil exemplares e distribuição gratuita, totalmente dedicada ao Encontro. Vida & Cultura Alternativa publica um encarte, contendo a ficha de inscrição, e patrocina milhares de cartazes. Vetillo, Sampurno e Purushatraya começam a obter espaços na grande imprensa. A primeira versão da programação oficial, já recebidas todas as respostas do Conselho, ganha forma no Rio. A partir desse momento, cada deslocamento de Param gacit para Rio ou São Paulo representará a produção de uma nova versão do documento.

Ao todo, serão produzidas ainda por volta de trinta programações “definitivas”. A Comissão Diretora deseja maior ênfase nos temas ligados à vida rural e comunitária, enquanto a Comissão Executiva defende mais espaço para a ecologia e a discussão da posição dos alternativos diante do novo contexto político. A promoção do Encontro encontra-se em um momento crítico: o banco encarregado da venda dos ingressos não distribuiu as fichas de inscrição por todas as suas agências, conforme o combinado.

Julho de 1985 – Armam-se esquemas de emergência: os minigrupos passam a vender os ingressos diretamente. Gente de todo o país telefona para Nova Gokula, para o escritório do PMDB, em SP, e para a COOVIDA. As duas comissões se reúnem em Pindamonhangaba e surgem da fusão de ambas, a Comissão Organizadora. A ausência de participadores e os problemas com a distribuição dos ingressos fazem temer um fracasso de público. Em São Paulo, consegue-se o aluguel de três circos de lona, que concentrarão boa parte da programação. As divergências de opinião entre cariocas e paulistas, ruraleiros e urbanóides, já estão praticamente superadas em termos de Comissão Organizadora, mas há expectativa quanto ao convívio das comunidades rurais, dos políticos, dos ecologistas e dos terapeutas que comparecerão ao Encontro. Na segunda quinzena de julho, completam-se as obras de infra-estrutura em Nova Gokula. O escritório de SP não pára de contactar jornalistas. No Rio, organizam-se grupos para aluguel de ônibus.

26 de julho de 1985 – Na véspera da abertura, toda a Comissão Organizadora já está em Nova Gokula. A infra-estrutura está toda pronta, mas há dois setores críticos: a recepção, onde formam-se longas filas para o preenchimento de fichas e surgem diversas dúvidas na identificação dos convidados (palestrantes e jornalistas), e a programação, que ainda não está definida: muitos palestrantes desejam alteração de datas e horários e – problemas mais grave – há muito mais palestrantes do que tempo disponível na programação. Convoca-se uma reunião de emergência, em que Lize Torok e Regina Sylvia redistribuem horários e conversam com todos os palestrantes presentes. Destes, muitos estão tendo pela primeira vez um contato pessoal com a Comissão Organizadora. Á noite, ninguém tem idéia de quantas pessoas estão no camping. No escuro, vêem-se barracas em toda parte, e os cálculos variam de 500 a duas mil pessoas. Ás duas da manhã, ainda se discutem detalhes da programação de abertura.



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