Utopias no Brasil de 1985

Durante o IX Encontro Nacional de Comunidades Alternativas, em 1985, ambientalistas, terapeutas, gestores de cooperativas, agricultores orgânicos e outros membros de tribos alternativas formaram grupos de trabalho temáticos e discutiram propostas para construir um país melhor. As conclusões apontam utopias válidas até hoje, assim como alguns caminhos que efetivamente se tornaram realidade.

Eis as conclusões dos diversos grupos de trabalho:

Saúde e alimentação natural

Afirmando que o estado de saúde depende de uma correta observância das leis da natureza, o relatório preconiza hábitos saudáveis de alimentação natural, respiração, higiene e práticas de pensamento que levem ao crescimento interior. No âmbito social, prega a formação de agentes de saúde alternativa para atuação na comunidade, a criação de uma central de informações para coleta das diferentes técnicas populares de cura existentes no Brasil e a difusão destas técnicas através de pacotes culturais oferecidos a instituições governamentais, empresas e grupos comunitários.

GT de educação no IX Encontro Nacional de Comunidades Alternativas

GT de Educação. No grupo, o professor Octávio Ulysséa, que mais tarde fundaria a Faculdade Espírita de Curitiba.

Educação

Com a afirmação de que o conhecimento deve ser uma síntese da ciência, da arte, da filosofia e da religião, o grupo enfatiza o papel da escola como centro de geração, e não apenas de repasse de saber. A didática deve ser estruturada para eliminar o Ego e unificar o movimento alternativo. O conhecimento técnico-científico gerado pelas práticas alternativas deve ser coletado e organizado por um centro a ser criado para este fim. O relatório defende ainda uma educação esclarecedora dos momentos que passamos, levando em conta todas as indicações de que a sociedade vive, hoje, um momento de crise e de fim de um ciclo.

Agrotóxicos

No mais técnico de todos os documentos do Encontro, o grupo identificou três causas para a sucessão de mortes de agricultores e envenenamento de consumidores provocados por agrotóxicos: a falta de conhecimento de técnicas agrícolas suaves, o desconhecimento das verdadeiras causas das pragas e doenças vegetais e a facilidade de aquisição de produtos tóxicos. Como soluções, enumera uma extensa lista de sugestões, que vão desde a proibição de venda de agrotóxicos sem receituário agronômico, com punições previstas em código penal nos casos de descumprimento, até a inclusão da questão ambiental na pauta da Constituinte.

Cooperativismo

Cooperativismo no VIII Enca - São Lourenço, 1984.

A defesa do cooperativismo sempre esteve presente nos ENCAS. Em 1984, no encontro de São Lourenço, a equipe  da COOVIDA, do Rio de Janeiro, estende a faixa com apoio de membros de comunidades da região de Visconde de Mauá.

Os representantes de cinco cooperativas ecológicas afirmaram que o cooperativismo e o alternativismo pressupõem a cooperação entre todos os homens, sem distinções, irmanados num movimento econômico e social que vise à manutenção material com o mínimo indispensável: “É a cooperação, e não a competição imposta pelo delírio consumista, que permite a evolução dos seres humanos. As cooperativas reciclam todos os materiais, inclusive o lixo (lixo é luxo!). O trabalho deve ser autogestionado, comunitário, com funções rotativas, e pressupõe a responsabilidade participativa e democrática. O trabalho manual tem o mesmo valor do intelectual quando há rotatividade nas funções.” O relatório defende ainda o resgate das culturas locais através de pesquisas e experimentações constantes, assim como a eliminação do ICM que incide sobre o ato cooperativo. E termina dizendo que “a economia cooperativista abomina as práticas capitalistas onde o homem é mero objetivo para a acumulação do capital. No cooperativismo, o homem é sujeito de sua história e o trabalho e a natureza são valores reais”.

Meio Ambiente

As 25 entidades representadas aprovaram a elaboração de uma pauta provisória para o I Encontro Nacional de Entidades Ecologistas Não Governamentais, a realizar-se em Belo Horizonte em abril de 1986. Os itens mais importantes são a discussão da forma de organização e luta do movimento ecológico, a participação dos ecologistas na Constituinte, a problemática da forma de partido, a crítica ao modelo sócio-econômico do país e o papel da imprensa e das redes de informação como canais do movimento. Decidiu-se também a criação do boletim nacional, cuja primeira edição está na matéria Conjuntura ambientalista em 1985.

Imprensa Alternativa

As dificuldades de distribuição e a desarticulação entre os diversos órgãos de imprensa alternativa foram os dois maiores problemas identificados pelos representantes de onze diferentes publicações. Diversas ações foram sugeridas, com destaque para a atuação dos jornalistas alternativos como intermediários entre as propostas alternativas e os meios de comunicação de massa, a criação de rádios-pirata voltadas para a conscientização ecológica, a organização de um núcleo de informações com utilização de processamento eletrônico de dados e de uma rede nacional de rádio amador para agilização, a baixo custo, da troca de informações.

O que aconteceu depois

Salvo engano, o I Encontro Nacional de Entidades Ecologistas Não Governamentais, marcado para 1986, não chegou a acontecer. Contudo, a Constituição de 1988 e a legislação posterior representaram significativos avanços na legislação ambiental (O Brasil tem hoje uma legislação razoável, se bem que raramente cumprida). Quanto à imprensa alternativa, transferiu-se em massa para a internet, muito mais barata e eficaz.

O professor Octávio Ulysséa, que coordenou o GT de Educação, fundou mais tarde a Faculdade Espírita de Curitiba e faleceu em 11.6.2009, deixando um importante legado para a história da educação com enfoque holístico e transdisciplinar.

 

Comentários

  1. RAFAEL BUENO diz

    OLA… TD BEM?
    GOSTARIA DE SABER SE VCS SABEM AONDE SERA O ENCA DESSE ANO. E COMO FACO PARA PARTICIPAR.
    AGUARDO UMA RESPOSTA.
    OBRIGADO

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